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O cerne da questão
das polícias
*

Brandino Mello Ribeiro — Coronel da reserva da PM e atualmente, Coordenador Militar da Presidência da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro — ALERJ

 

Que me perdoem os corporativistas e tradicionalistas, mas estou convencido de que um dos grandes empecilhos para a unificação das polícias estaduais brasileiras reside nos respectivos títulos nominais.

Do mesmo modo que a Casa Militar da Presidência da República mudou seu rótulo, passando a se chamar Gabinete de Segurança Institucional, ouso afirmar que os adjetivos civil e militar já não servem mais para qualificar o substantivo polícia. É uma questão de marketing.

Em nossa cultura, os adjetivos civil e militar têm conotações de excludência para não dizer de oposição, pois são tipos de organização que diferem pela formação acadêmica e pelo regime estatutário, propiciando, consequentemente, óticas distintas ou leituras próprias sobre as questões da segurança pública e as formas de tratá-las.

Exemplo marcante dessa diferença estatutária é a chamada aposentadoria compulsória, obrigatória, que na Polícia Civil ocorre aos 70 anos, enquanto na Militar gira em torno dos 50, diferindo em cada estado da federação ao aposentar seus coronéis após quatro, seis, ou oito anos neste posto.

Observe-se que em Portugal, a polícia uniformizada é denominada Polícia de Segurança Pública ( PSP ) . Por aqui, o bacharelismo predomina de um lado, com a obrigatoriedade, inexistente nos países mais desenvolvidos, da formação em Direito para ser autoridade policial. Do outro lado, privilegia-se um militarismo às vezes desnecessário.

O modelo organizacional atual, engessado pelo artigo 144 da Constituição, impede qualquer unificação, sendo inócuas as iniciativas neste sentido nas esferas estadual e municipal, embora os esforços no âmbito operacional tenham obtido avanços significativos.

Alguns estudiosos justificam, equivocadamente, a divisão do aparelho policial como conseqüência da necessidade de se contrabalançar força e poder, assim representadas as áreas de atuação da polícia judiciária, de investigação, e de perícia técnica e as da polícia ostensiva, preventiva, visível à população. Poderíamos dizer, didaticamente, que uma age no varejo, após a ocorrência do fato delituoso, enquanto a outra atua no atacado, antes ou durante o fato, distribuindo segurança para todos os que sentem a sua presença. E o mais importante é que ambas constituem partes sistêmicas de um todo indivisível, que precisa de trocas constantes de informações para uma vital retroalimentação.

É neste enfoque sistêmico que devemos orientar nosso debate, classificando em área de software aquilo que é passível de modificação pela capacidade criativa da instituição — treinamento, formação, aperfeiçoamento, modus operandi — e em área de hardware, de caráter mais permanente, a máquina ou o modelo organizacional, as competências legais, o arcabouço legislativo.

Desta forma, poderíamos concluir que é impossível rodar um software do Século XXI num velho "286"; ou seja, se desejamos uma polícia de alta produtividade, precisamos nos livrar desta máquina ultrapassada. E termos que deixar de tratar o tema como meras questões de segurança pública.

Na verdade, é necessário definir qual deve ser o saber apropriado para cada um dos níveis de uma estrutura organizacional de polícia, que não precisa ser tão extensa. Nos Estados Unidos, por exemplo, a carreira tem quatro níveis: police, officer, sergeant, lieutenant e captain. E a diferença do salário inicial para o mais elevado não passa de três vezes.

Outro aspecto é o uniforme. Todas as polícias do mundo têm uniformes, que só não são usados quando a atividade investigativa obriga ao disfarce.

Finalmente, não se pode abrir mão da hierarquia e da disciplina, instrumentos indispensáveis para o rígido controle de seus agentes e fundamentais para uma atividade que lida diuturnamente com os bens indisponíveis da cidadania: a vida e a liberdade.

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Este artigo, originalmente foi publicado em o jornal O Globo e sua publicação no Dominio Feminino foi gentilmente permitida pelo autor.

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