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Confesso
que não gosto de filmes brasileiros e, portanto, não
os assisto. A arte ou seu arremedo sempre retrata a cultura
de uma dada sociedade, e emprego aqui o termo cultura no sentido
do complexo de valores, comportamentos e atitudes sociais.
Nesse sentido nossos filmes mostram nossa visão de
mundo, exaltando o que nos é caro: anti-valores e anti-heróis.
Vão da glamourização dos bandidos transformados
em mocinhos a satanização dos mocinhos transformados
em bandidos. E as chamadas obras cinematográficas,
produzidas comodamente à sombra do governo, normalmente
apelam para a pornografia, transformando em lixo o que poderia
ser arte.
O
mesmo se dá com novelas, influentes meios de moldar
comportamentos, onde a glorificação do mau-caratismo
é comum sendo que os vilões é que empolgam
os telespectadores. Além do mais, através dos
folhetins eletrônicos é possível passar,
de forma subliminar, a ideologia do poder político
do momento. Exemplifico com a novela Paraíso Tropical,
que resvalava, sem que a grande maioria o percebesse, para
um tipo de doutrinação relativa a luta de classes
e para o incentivo do preconceito do negro contra o branco
(recorde-se que uma ministra do presidente Lula da Silva afirmou
não ser preconceito o negro hostilizar e odiar o branco,
porque esse é um direito da raça negra). Na
novela, várias vezes Bebel, a prostituta, chamou sua
rival de branca azeda e de outros termos depreciativos, além
de fazer críticas à posição social
da loura, noiva do personagem Olavo. Fico imaginando se a
branca azeda retrucasse com algum insulto relativo
aos negros. Provavelmente a Rede Globo seria processada e
o autor da novela preso sob a acusação de crime
hediondo e inafiançável.
Mas
se não gosto de filmes nacionais acabei abrindo uma
exceção e fui ver Tropa de Elite. Sai do cinema
impressionada. Pela primeira vez descortinava-se na pobreza
da cinematografia brasileira algo de valor, realista, sem
o vezo esquerdopata que só atribui direitos aos bandidos
e os trata como coitadinhos, que por serem vítimas
da sociedade são livres para cometerem crimes bárbaros
que sempre devem ser perdoados.
Tropa
de Elite passou longe do insuportável pieguismo do
politicamente correto. Mostrou com crueza e clareza o cerne
da violência urbana ligada ao narcotráfico, mantido
por usuários de drogas muitos dos quais pertencentes
a juventude dourada da zona sul, do Rio de Janeiro. Vestidos
de branco, eles participam de passeatas em nome da paz enquanto
alimentam o tráfico. Dotados de consciência
social, fazendo parte de ONGs, sobem o morro para hipocritamente
fazer suas caridades, enquanto cheiram e compram
cocaína e outras drogas para consumir e vender.
Significativamente
o filme mostra jovens consumidores de drogas como estudantes
de Direito. Eles deveriam ser dotados de consciência
legal, mas odeiam a polícia que reprime os companheiros
do tráfico. Ironicamente, os bons-mocinhos e mocinhas,
amigos dos traficantes, pagarão caro por suas bondades.
Um dos rapazes será supliciado no micro ondas
(tortura das mais cruéis que consiste em colocar a
pessoa dentro de uma pilha de pneus e atear fogo para queimá-la
lentamente). Uma das moças será morta à
tiros. Tais cenas mostram que bandido não tem escrúpulos
nem piedade, o que torna impossível que policiais tratem
tais criminosos bestiais com flores e afagos.
Para
enfrentar as bestas-feras, encasteladas nos morros, só
o Batalhão de Operações Policiais Especiais
(Bope), do Rio de Janeiro. Seus policiais passam por treinamento
extremamente rigoroso e não estão contaminados
pela corrupção que envolve parte da polícia
que se rendeu ao sistema. Nesse sentido o termo elite relacionado
à tropa está correto e não deturpado
pela esquerda petista, pois elite não significa ricos
malvados, mas produto de qualidade, podendo existir
elites econômicas, políticas, intelectuais, etc.,
que são grupos que se destacam na sociedade por seu
padrão de excelência.
Referindo-se
ao sistema o capitão Nascimento, figura de herói
(aquele capaz de dar a vida por sua causa e não um
jogador de futebol) representada magistralmente pelo ator
Wagner Moura, coloca a mensagem mais importante do filme,
aquela que todos no íntimo sabem, mas fingem ignorar:
ou o policial se corrompe, ou se omite, ou vai para
a guerra. O capitão Nascimento sabe que poucos
como ele irão para a guerra, e que a luta pode parecer
inglória diante do sistema, mas tem consciência
de que, não obstante a escolha que pode ser paga com
a vida, o Bope faz a necessária diferença.
No
momento político que atravessamos, onde os Poderes
Constituídos estão mais apodrecidos do que nunca,
mais corruptores e corruptos do que nunca, mais cínicos
do que nunca, que já não se sabe quem é
autoridade e quem é bandido, que não existem
oposições para valer e partidos se entregam
ao Executivo como manda a ministra do turismo, relaxando e
gozando, ou surge um Batalhão de Operações
Políticas Especiais, ou estamos de vez derrotados
pelo sistema..
(
* ) Maria Lucia Victor Barbosa
é socióloga.
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