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Depois
de 60 anos em vigor, a legislação que trata de punições em
caso de aborto, será discutida pelo governo federal. Já era
hora. A intenção é rever a Lei que trata da interrupção voluntária
da gravidez. Na primeira Conferência Nacional de Políticas
para as Mulheres o tema foi discutido e disso saiu um relatório
de reivindicações para melhoria nas condições de vida da mulher.
A
parte que trata do aborto é colocada como um direito da mulher
de ser emancipada e autônoma na decisão de interromper ou
não uma gravidez indesejada. Estão confundindo as coisas.
Claro que o aborto deve deixar de ser crime, como a Igreja,
sem nem saber explicar as razões, insiste em defender. Claro
que na gestação de fetos sem cérebro a mãe tem que ter o direito
ao aborto. É inadmíssível o Estado obrigar uma mulher
a carregar um filho por nove meses, sabendo que este estará
morto logo ao nascer. Mas o aborto não deve ser colocado como
um grande poder que a mulher irá conquistar. Isso é ridículo!
O
aborto é permitido nos países desenvolvidos, mas estamos longe
de sermos, de fato, desenvolvidos. Não adianta tapar o sol
com a peneira. A falta de instrução e esclarecimento da população
é visível, e uma liberação indiscriminada poderá transformar
a saúde pública em uma fábrica de horrores, mais do que já
é. Aborto não pode substituir os métodos contraceptivos nem
ser uma forma de controle populacional, mas será usado como
tal se for liberado com o nível de educação que existe hoje
no Brasil.
O
que se deve fazer é a programação da liberação gradual, vinculada
ao cumprimento de determinadas ações de políticas públicas
voltadas para a conscientização e a educação sexual.
Fazer
um aborto não é, em hipótese alguma, uma vitória para a mulher,
como querem colocar. É um processo doloroso, uma invasão ao
próprio corpo e uma agressão ao espírito da mulher. Não acredito
que alguma dessas ferrenhas defensoras da liberdade de abortar
como conquista da emancipação da mulher, tenha passado por
um processo desse.
Eu
passei. Perdi um filho no quinto mês de gravidez e posso afirmar
que foi a pior experiência que podia ter. Uma sensação de
vazio, de impotência. Além da dor da perda, a sensação de
ser culpada, mesmo tendo sido uma interrupção espontânea e
indesejada.
A
grande revolução e conquista da mulher como um ser independente
e autônomo será o dia que ela engravidar apenas porque deseja,
o dia que a mulher for esclarecida, que ela puder programar
sua vida e optar se quer ou não gerar um filho. A modernidade
já nos permite isso, com os diversos meios contraceptivos.
Mas enquanto a gravidez indesejada for sinal de subdesenvolvimento
e de ignorância do país, liberar por liberar o aborto é querer
ser o que não somos.
Não
sou contra o aborto, mas é inaceitável que a prática dele
seja colocada como avanço da condição feminina quando na verdade,
é mais uma demonstração da inferioridade e incapacidade de
arcar, responsavelmente, pela liberdade sexual conquistada
pelas próprias mulheres.
Liberdade
não é o direito de se agredir, liberdade é o poder definir
e programar sua vida. Que espécie de liberdade é essa que
pode deixar marcas profundas e eternas no coração da mulher.
De que adiantará esvaziar livremente o útero e ferir a alma?
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