Dislexia
é uma dificuldade específica de linguagem, que se apresenta na
língua escrita. A dislexia vai emergir nos momentos iniciais da
aprendizagem da leitura e da escrita, mas já se encontrava subjacente
a este processo. É uma dificuldade específica nos processamentos
da linguagem, para reconhecer, reproduzir, identificar, associar
e ordenar os sons e as formas das letras, organizando-os corretamente,
sendo proveniente das funções corticais superiores.
É certamente
um modo peculiar de funcionamento dos centros de linguagem, mas
não é uma doenca neurológica. É freqüente encontrar-se outras
pessoas com dificuldades semelhantes nas histórias familiares.
O importante
é aceitar-se a dislexia como uma dificuldade de linguagem que
deve ser tratada por profissionais especializados. As escolas
podem acolher os alunos com dislexia, sem modificar os seus projetos
pedagógicos curriculares. Procedimentos didáticos adequados possibilitam
ao aluno vir a desenvolver todas as suas aptidões, que são múltiplas.
Vale relembrar que os disléxicos estão em boa companhia, junto
a Einstein, Agatha Christie, Hans Christian Andersen, Nelson Rockefeller
e Tom Cruise, entre muitos.
A boa
compreensão da leitura provém do equilíbrio entre o desenvolvimento
das operações da leitura, decodificação e compreensão, interagindo
com os estágios de desenvolvimento do pensamento e dos processamentos
lingüísticos. Não é necessário destacar, é claro, a importância
dos vínculos afetivos estabelecidos com a aprendizagem.
A primeira
operação de leitura, a decodificação, tem como estrutura de pensamento
operativo predominante o pensamento figurativo, aquele que se
ocupa da construção das imagens visuais e auditivas — objeto,
espaço e tempo.
O sucesso
desta operação leitora inicial, a decodificação, vai depender
da ação da percepção sobre o objeto a ser apreendido, no caso,
a palavra escrita. É neste momento que se constróem as relações
entre os sons e as formas, a ordenação sequencial das letras nas
palavras e das palavras nas frases.
Quanto
mais a linguagem escrita, leitura e escrita, se fazem necessárias
mais a dislexia se revela, sendo confundida muitas vezes com problemas
gerais de aprendizagem. Aí é que mora o perigo!
As dificuldades
de aprendizagem, nestes casos, não são decorrentes de falhas no
desenvolvimento do pensamento operativo, afetivo-emocional, ou
sócio-cultural. São alterações decorrentes das dificuldades específicas
no processamento lingüístico escrito, que tem a leitura e a escrita
como suas ferramentas principais. O valor da intervenção precoce
quando suspeitarmos da presença de fatores disléxicos, fala por
si mesmo.
Há muitos
sinais, visíveis nos comportamentos e nos cadernos das crianças,
que podem auxiliar aos pais e educadores a identificar precocemente
a dislexia. Citamos alguns entre tantos, tais como:
demora
nas aquisições e desenvolvimento da linguagem, expressão e compreensão;
alterações
persistentes na fala; dificuldades no desempenho motor, como jogar
bola e pular corda; demora em aprender a dar laços, recortar,
desenhar, escrever números e letras corretamente;
dificuldade
para organizar-se no tempo, reconhecer as horas, organizar seqüências
temporais;
dificuldade
em ordenar as letras do alfabeto, sílabas em palavras longas,
dias da semana, meses do ano;
dificuldade
em organizar-se espacialmente e distinguir entre direita e esquerda,
em si e no espaço.
É preciso
ter uma especial atenção com as crianças que gostam de conversar,
são curiosas, entendem e falam bem, mas aparentam desinteresse
em ler e escrever. Vale a pena, no caso de crianças leitoras,
oferecer um mesmo problema matemático, escrito e oral, e comparar
as respostas. Freqüentemente encontramos respostas diferentes.
A mesma
criança que parece não saber resolver um problema e ter dificuldades
lógico-matemáticas, quando exposta à situação de processar a mesma
questão oralmente, poderá sair-se muito bem. É um caso a pensar.
A pessoa com dislexia, na vida escolar, não mereceria ser atendida
através de seus melhores canais de comunicação — a linguagem oral
antecedendo a linguagem escrita?
Importante
é pensar a dislexia como uma modalidade peculiar de processamento
da linguagem, o que vem sendo cada vez mais pesquisado pelas ciências
neuro-cognitivas, tendo a linguagem como vetor. A pessoa com dislexia,
ou com fatores disléxicos, mereceria ser examinada e acompanhada
por profissionais especializados em linguagem, para que não venham
a ser confundidos os sintomas de distúrbios de linguagem com distúrbios
de aprendizagem.
Vale
relembrar — alguém não é apenas a dificuldade que apresenta, esta
é só um detalhe de uma paisagem, rica, complexa e bela.
Clélia
Argolo Estill
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