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Casamento
&
Crise
Antonio Carlos
Alves de Araújo *
Psicólogo
– C.R.P: 31341/5
Comunique-se
28, Novembro/2003
Se
pensarmos na saúde emocional em sua totalidade, a questão
amorosa deveria ser a prioridade absoluta, caso contrário,
o conflito têm a tendência de inundar a vida pessoal, gerando
constante insatisfação e infelicidade. Todos nos tempos
atuais deveriam ter em mente que o amor, romance, namoro
ou qualquer nome que batizarmos para um relacionamento,
não pode ser encarado como uma recreação ou passatempo dos
finais de semana, sendo uma espécie de continuação de nossas
atividades profissionais.
A
verdadeira e profunda análise do inconsciente é a descoberta
do momento em que nos recusamos à uma genuína experiência
amorosa, ou então se escolhe erroneamente por temer a mesma.
O medo, ciúmes ou competição na relação deriva da agregação
entre excitação e competição. Nos termos históricos da psicologia,
quando Freud dizia do famoso "complexo de Édipo", nada mais
era do que o começo da disputa na família sobre quem iria
deter o poder sobre a afetividade. Erroneamente nos acostumamos
à enxergar o complexo de Édipo na essência( o menino disputando
com o pai a soberania do prazer materno), quando na verdade
a questão é quem nos proporcionou uma base sólida de confiança
ou segurança íntima para vivenciarmos a afetividade no futuro,
e caso não tenhamos o registro da mesma, como fazer para obtê-la.
uando
escolhemos determinado parceiro afetivo ou sexual, a primeira
questão que se coloca é que tipo de vivências iremos obter
com o mesmo: sexo, prazer, sofrimento, angústia e inquietação
dentre outras. Poucos percebem que a análise do inconsciente
por parte de um psicólogo é fundamental para se descobrir
o que realmente merecemos ou estamos atraindo em nossos relacionamentos.
Como cada um lida com seus sentimentos negativos é a chave
para se descobrir o que nos espera. Um exemplo prático disto
é a forma como a contrariedade, carência e até a vingança
pessoal é demonstrada diariamente(mal humor, sintomas psicossomáticos
e discussões). É importante o percebimento desse processo,
ao invés da negação cristã internalizada de que não possuímos
ódio ou desejo de se vingar. A hipocrisia e dissimulação são
os alicerces mais profundos da insatisfação generalizada,
que dramatizamos no cotidiano do relacionamento. Para entendermos
melhor o processo histórico da escolha, se faz necessária
uma breve análise psicológica da família.
Todos
nos acostumamos a buscar segurança emotiva na família, e logo
percebemos que estamos tão excluídos como na questão econômica,
sentindo um "desemprego emocional", pois a miséria afetiva
caminha em paralelo com a econômica. Se pensarmos em determinada
pessoa que passou privação material no seu passado veremos
determinados mecanismos compensatórios em sua maneira de encarar
as relações sociais; no caso de alguém que passou pela privação
emocional seria muito interessante fazermos a mesma pergunta:
que tipo de mecanismo psíquico é resultante desse processo?
A primeira conclusão é que tal pessoa irá buscar o retraimento
afetivo, e da mesma forma que alguém que sentiu a miséria
econômica, "economizará" o máximo possível na troca e relacionamento
emotivo.
Praticamente todas as escolas da psicologia colocaram a família
como o palco do desenvolvimento dos futuros problemas e neuroses
da pessoa, seguindo uma orientação psíquica e biológica, baseadas
na fragilidade e dependência do ser humano. O hiato em tal
concepção é que a neurose não é fruto dos conflitos familiares,
sejam os mesmos: ciúmes, agressividade ou baixa auto estima
, mas, da ausência ou sentimento de carência por não ter se
aproveitado de determinado potencial afetivo.
A
essência da carência nesta concepção não é a falta em si mesma,
mas a revolta da não utilização do potencial, sendo que tal
energia é totalmente desviada para a neurose. Talvez devêssemos
delinear o que buscamos num relacionamento, pois muitas vezes
confundimos os elementos que se colocam a nossa frente. Desejamos
amizade, companheirismo, atração sexual por parte do outro,
fidelidade, citando alguns exemplos. Obviamente seria absurda
a reunião de tais qualidades em uma só pessoa, embora todos
gostem de delirar sobre a pessoa que escolhem. A prática psicológica
têm nos dito que milhares de relações terminam abruptamente
quando um dos parceiros manifesta que o centro de suas emoções
perante o outro é a amizade. Não há maior ofensa para a pessoa
do que ouvir que a mesma não é o objeto da mais pura satisfação
ou desejo sexual, mas, tão somente uma espécie de "colega
de turma". Não quero afirmar que a questão da sexualidade
seja a primazia na mente de todos, mas cabe denunciar a hipocrisia
na manifestação sentimental perante o parceiro. Quando alguém
fala que deseja manter a amizade, está paralelamente negando
a morte de seu desejo sexual em relação ao parceiro, não admitindo
a perda da libido, talvez por um sentimento de culpa, que
é a prova derradeira da morte da relação pela falta de coragem
em assumir tal condição.
O
que ocorre neste caso, é como no aspecto econômico, quando
as pessoas por mais que não precisem de determinado elemento
material, não admitem a perda do mesmo. O leitor poderá insistir
que estou assinalando que a raiz da duração de uma relação
é a certeza de ser desejado sexualmente continuamente pelo
outro. Em parte isso é a verdade, mas tão fundamental quanto
tal conceito é a honestidade da manifestação do que está acontecendo.
Como
é possível duas pessoas que se conhecem há tempos desenvolveram
o medo de expor a realidade? Medo de magoar o outro? Todos
sabem que o mais nojento sentimento humano depois da destrutividade
é a pena, pois a mesma despotencializa por completo o outro,
catalizando o complexo de inferioridade pessoal. Talvez não
exista desafio maior para qualquer ser humano do que lidar
com suas experiências pretéritas e o impacto destas sobre
sua saúde física e psicológica. O primeiro ponto para a reflexão
é: Gostaríamos de esquecer ou reviver as antigas experiências?
A resposta para tal pergunta norteará a essência do caráter
da pessoa; extroversão e motivação para o novo, caso a resposta
seja a primeira, ou introversão e confinamento no imaginário,
na segunda opção. Claro que isto não é uma regra fixa, pois
não podemos declarar uma pessoa como sendo mais retraída ou
desanimada apenas por estar presa no passado, sendo que o
conceito é apenas para termos um parâmetro do funcionamento
mental do indivíduo. Devemos refletir quais mecanismos conscientes
ou inconscientes as pessoas se utilizam para reviver determinadas
etapas inacabadas. As estratégias utilizadas definirão o tipo
de motivação pessoal frente à esfera social.
Freud
chamou de "compulsão a repetição", o processo de reviver interminavelmente
determinada neurose, assim sendo, quando alguém como exemplo
repetia um relacionamento ou acontecimento frustrado, seria
uma tentativa da libido descarregar a energia acumulada ou
represada até conseguir o êxito de sua missão. Freud associou
tal complexo ao instinto de morte inato no ser humano, pois
o prazer absoluto ou ausência da dor, apenas seriam obtidos
no retorno ao inanimado, que seria a morte. Embora tal conceito
até o presente seja um tanto difícil de ser elaborado, não
precisamos ir muito longe para vermos que determinadas pessoas
possuem um núcleo doentio de sempre estarem repetindo suas
experiências mais dolorosas. Porém, o que Freud deixou de
mencionar é que a repetição na sua essência é um desafio imposto
pelo ego frente ao orgulho ferido. A pessoa mesmo sabendo
do risco da continuidade de determinada desgraça, aceita novamente
uma situação similar, como o jogador compulsivo. É o famoso
complexo de inferioridade descrito pelo psicólogo contemporâneo
de Freud: Alfred Adler.
O
sofrimento passa a ser um preço de baixíssimo custo para uma
alma que necessita de reparação, seja por ter sido excluída
do afeto, ou totalmente imbuída do desejo de vingança. Estes
são indiscutivelmente dois dos núcleos da alma humana, embora
todos gostem de esconder tais sentimentos com a capa da religiosidade.
Chegamos à conclusão de que uma das coisas mais importantes
para qualquer pessoa é o clamor arraigado por uma escuta de
alguém que lhe diga seu valor e a oriente emocionalmente,
do contrário, a depressão tomará sua alma. A essência de qualquer
neurose não é a repressão sexual, mas principalmente a ausência
do "tutor emocional"; alguém com certa experiência de ser
amado e que nos mostre o caminho para conseguirmos semelhante
experiência. Fica claro que a partir do percebimento de repetições
constantes de frustração, é chegado o momento da procura da
ajuda. O cerne da psicoterapia é justamente desfazer esse
vínculo eterno com o vício de sofrer; não que seja possível
apenas vivenciar o prazer, mas o importante é a estrutura
emocional para lidarmos e aprendermos com as coisas que não
deram e não podem dar certo, aceitando em todas as esferas
nossos limites, como toda a psicologia gosta de enfatizar.
É
importante perceber que a personalidade estratificada na culpa
e dor acha mais fácil o puro sofrimento, do que a utilização
de sua experiência como conteúdo e suporte para milhares de
histórias de tragédia e desamparo ao seu redor. O complexo
de inferioridade extremo é restringir o sofrimento para uma
esfera totalmente privada, retirando do indivíduo o conhecimento
profundo sobre as emoções negativas; dádiva incomensurável
em nosso tempo.
Como
Adler sempre assinalou, a vivência da dor é uma tentativa
torpe da busca da superioridade social, sendo que a pessoa
não apenas diviniza seu sofrimento, mas, o coloca numa esfera
única e inatingível no tocante à sua dissolução. Em termos
do passado, esta personalidade irá se perguntar se deve aceitar
o conformismo que reforça sua dor, ou algo de extrema dificuldade
para seu ego: mobilizar pela primeira vez seus mecanismos
conhecidos para uma "revolução" interna, aceitando toda a
ansiedade decorrente. Se tivéssemos o hábito da reflexão e
busca do autoconhecimento iríamos relembrar como passamos
por cada etapa de nossa vida, e qual marca pessoal depositamos
frente às novas experiências; (Primeiro dia na escola; conversar
com alguém fora do âmbito familiar; puberdade e masturbação;
primeiro namoro; sexualidade e primeiro emprego). A tônica
destas experiências foi: ansiedade; choro e depressão; medo;
alegria ou gozo pessoal?
Entender
o centro de nossa personalidade é tarefa vital na busca do
conhecimento interno e satisfação. A raiz do complexo de inferioridade
descoberto por Adler é a constante instabilidade emocional,
decorrente das precárias experiências de socialização do sujeito.
O prazer para Adler, não era apenas uma experiência de satisfação
pessoal, mas, sobretudo, a possibilidade do sujeito usar seu
potencial para modificar a história de sua comunidade. Caso
a pessoa falhe nessa jornada, o prazer será eterno companheiro
da angústia e tédio, reduzindo a intensidade das experiências
gratificantes.
Adler
inclusive cunhou uma fórmula para o entendimento da natureza
do complexo de inferioridade:
Experiências precoces infantis de rejeição= desenvolvimento
do complexo de inferioridade= tentativa de compensação através
do excesso de doenças infantis de fundo emocional ou comportamento
de birra= caráter individualista; ou criança mimada no sentido
de ter poder forçando a atenção de todos para seu problema;
ou simplesmente não participando da vida familiar (timidez)=
recusa constante de dividir suas vivências; principalmente
no tocante às emoções; não contribuindo com o progresso emocional
entre os membros de seu grupo. Adler via o modelo mental como
uma miniatura individual das relações econômicas e sociais,
e não precisamos de nenhum esforço intelectual para descobrir
como todo o exposto é tão óbvio em nossos tempos. Podemos
concluir dizendo que o medo maior de todo ser humano é a fusão
de sua história pessoal e emocional (incluindo todos os traumas
ou vivências subjetivas de desamparo individual), aliado à
expectativa do julgamento do meio (opinião alheia), fator
determinante no direcionamento do estilo de vida que a pessoa
irá adotar, sendo uma das medidas mais exatas de seu amor
próprio.
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