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    Resoluções de Ano Novo

 

       Ubiratan Iorio ( * )
       03, Janeiro/2005

   
 

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Imaginemos que um ''cidadão'' chamado Brasil, deitado em berço esplêndido há cinco séculos, adquirisse alma, inteligência e consciência, tomasse uma folha de papel e, como muitos mortais fazem a cada passagem de ano, desse asas à superstição de escrever resoluções para os próximos 12 meses, disposto a segui-las. O que escreveria?

No alto da página, como proposição principal, sublinharia: ''Não vou mais permitir que me chamem de país do futuro, porque ninguém agüenta carregar um peso desses por 503 anos seguidos; vou recuperar o tempo que me fizeram perder, obrigando-me a dormir com soníferos e sacrificando milhões e milhões dos meus filhos, geração após geração, governo após governo, ilusão após ilusão, para o que tomarei, entre outras, as medidas a seguir''. E prosseguiria:

''Primeira: chega de corrupção, de imoralidade, de mentiras e de vícios!
Segunda: fica proibido fazer uso eleitoral e demagógico da pobreza e da fé alheia para angariar votos e enriquecer!
Terceira: basta de centralização de poder: daqui em diante, vou ser uma república federativa de verdade!
Quarta: o Estado passará a servir aos cidadãos e deixará de servir-se deles, o que significa que precisa de reformas profundas!
Quinta: para tanto, para início de conversa, promoverei uma reforma política para valer, com partidos programáticos e fidelidade a eles por parte dos políticos!
Sexta: toda a burocracia será profissionalizada e reduzida ao mínimo indispensável, ficando terminantemente proibido inchar a máquina pública de ''funcionários companheiros'', como o atual governo vem fazendo!
Sétima: qualquer político ou partido que, chegando ao poder, não cumprir o que prometeu em campanha - a não ser em casos excepcionais, como catástrofes, choques externos e guerras - será processado e proibido de concorrer a novos mandatos!
Oitava: prefeitos, governadores, presidentes e ministros deverão ter curso superior, para que não ajam como bonecos de ventríloquos e nem derramem bobagens quando se pronunciarem em público, ficando claro ser esta deliberação fruto de um conceito formado, firmado e comprovado, e não de qualquer preconceito!
Nona: quem quiser abrir um negócio legal, terá automaticamente autorização para fazê-lo, no prazo máximo de três dias úteis!
Décima: ficam abolidos todos os 70 impostos, taxas e contribuições existentes e adotado o imposto único, em âmbito municipal!
Décima primeira: fica instituído o princípio da subsidiariedade, em que os estados da federação serão supridos pelos respectivos municípios e a União pelos estados!
Décima segunda: o Judiciário e o Legislativo, nas três esferas de governo, passam a ser independentes de fato dos Executivos!
Décima terceira: institui-se a liberdade econômica e a de expressão, adotando-se a economia de mercado e obstruindo-se qualquer agressão a essas liberdades, como os monstrengos do Conselho Nacional de Jornalismo e da Ancinav, verdadeiros frutos de um autoritarismo serôdio, de caráter nazi-fascista-comunista!''

 

Como a praxe, segundo contam, é de escrever apenas 13 resoluções, o nosso amigo Brasil ficaria por aí. Mas, como post-scriptum, ainda anotaria um pedido:

''quero que todos os brasileiros aprendam duas coisas básicas:
a entender o que lêem e a deixar de confundir causas com efeitos''!

Essas proposições teriam que ser adotadas não por uma cabeça ou por um partido, ou por um iluminado de plantão, mas a partir de uma enorme mudança de mentalidade e de atitudes por parte dos cidadãos, algo que, infelizmente, é impossível ocorrer em um período razoável de tempo, já que estamos tratando de valores morais e culturais profundos e, ademais, que vivemos em uma sociedade que ainda acredita que o Estado é um pai benfeitor e que deve nos prover de tudo o que necessitamos. O sono deve continuar por algum tempo... Não obstante, Feliz 2005 para todos!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Doutor em Economia (EPGE/FGV), Vice-Presidente Executivo do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (Cieep) e Professor da UERJ, da FGV, da PUC e do IBMEC.
www.ubirataniorio.org

Artigo pulicado no Jornal do Brasil

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